Usabilidade em Dispositivos Médicos
Como estruturar um projeto de usabilidade para dispositivos médicos

A estruturação de um projeto de usabilidade em dispositivos médicos não é apenas uma boa prática — é uma exigência regulatória.
Com a evolução das exigências da ANVISA, especialmente após a RDC 751/2022, fabricantes passaram a precisar demonstrar, de forma clara e rastreável, que seus produtos são seguros do ponto de vista de uso.
E aqui está o ponto crítico:
Usabilidade regulatória não é um teste no final do projeto.
É um processo estruturado ao longo de todo o desenvolvimento.
Neste artigo, você vai entender como estruturar um projeto de usabilidade de forma consistente, alinhada à IEC 62366-1 e preparada para submissão regulatória.
O que é um projeto de usabilidade na prática
Um projeto de usabilidade não é apenas avaliar se o produto é “fácil de usar”.
Na engenharia de usabilidade para dispositivos médicos, o objetivo é:
- Identificar riscos relacionados ao uso
- Reduzir a probabilidade de erro do usuário
- Garantir segurança do paciente
- Gerar evidência documental para órgãos reguladores
Ou seja, trata-se de um processo de engenharia baseado em risco.
Etapa 1: Definição do contexto de uso
O primeiro passo é entender profundamente onde e como o dispositivo será utilizado.
Isso inclui:
- Perfil dos usuários (profissionais de saúde, pacientes, técnicos)
- Ambiente de uso (UTI, ambulatório, residência)
- Condições de operação (pressa, estresse, iluminação, ruído)
Sem essa definição, todo o restante do projeto fica comprometido.
Porque o risco de uso depende diretamente do contexto.
Etapa 2: Definição das funções e tarefas críticas
Nem todas as interações com o dispositivo têm o mesmo impacto.
Por isso, é fundamental identificar:
- Funções principais do equipamento
- Sequência de uso
- Tarefas críticas (aquelas que podem gerar dano se executadas incorretamente)
Exemplos de tarefas críticas:
- Ajuste de parâmetros terapêuticos
- Início/interrupção de tratamento
- Configuração de alarmes
Essas tarefas serão o foco das análises e validações futuras.
Etapa 3: Análise de riscos de uso
Aqui começa o coração do processo.
Para cada tarefa crítica, deve-se identificar:
- Possíveis erros de uso
- Situações perigosas
- Consequências (danos potenciais)
Esse processo deve estar alinhado com a lógica da ISO 14971, conectando risco ao uso.
A estrutura típica é:
Tarefa → Erro de uso → Situação perigosa → Dano → Severidade → Probabilidade
Essa análise orienta todas as decisões de design e validação.
Etapa 4: Definição de medidas de controle
Após identificar os riscos, o próximo passo é reduzi-los.
As medidas podem incluir:
- Alterações na interface (layout, cores, fluxos)
- Inclusão de confirmações para ações críticas
- Feedback visual ou sonoro
- Proteções contra erros (ex: bloqueios, alertas)
- Melhorias em instruções de uso
Importante:
A interface do usuário é uma medida de controle de risco.
E isso precisa estar documentado.
Etapa 5: Avaliação formativa
Antes da validação final, é essencial testar o design ao longo do desenvolvimento.
A avaliação formativa permite:
- Identificar problemas de usabilidade precocemente
- Ajustar a interface antes da validação final
- Reduzir retrabalho
Métodos comuns:
- Análise heurística
- Simulações de uso
- Testes com usuários
Essa etapa não é obrigatória do ponto de vista regulatório — mas é altamente recomendada.
Etapa 6: Validação de usabilidade (avaliação sumativa)
Essa é a etapa crítica para submissão regulatória.
Aqui, o objetivo é demonstrar que:
Usuários reais conseguem utilizar o dispositivo com segurança.
A validação deve:
- Focar em tarefas críticas
- Utilizar usuários representativos
- Simular condições reais de uso
- Coletar evidências de desempenho
O resultado deve responder:
- Ocorreram erros de uso?
- Esses erros são aceitáveis?
- O risco residual é controlado?
Sem essa evidência, o dossiê fica incompleto.
Etapa 7: Consolidação do arquivo de engenharia de usabilidade
Todo o processo precisa ser documentado de forma estruturada.
O arquivo deve conter:
- Contexto de uso
- Análise de tarefas
- Análise de riscos
- Medidas de controle
- Resultados das avaliações
- Conclusão de segurança de uso
Esse documento é o que será analisado por auditores e pela ANVISA.
E aqui acontece um dos maiores problemas do mercado:
Falta de rastreabilidade entre as etapas.
Erro comum: transformar usabilidade em documentação tardia
Um dos erros mais frequentes é tentar “resolver usabilidade” no final do projeto.
Isso leva a:
- Testes desconectados do risco
- Falta de justificativa de design
- Inconsistência documental
- Exigências regulatórias
Usabilidade regulatória não é um relatório.
É uma linha de raciocínio técnico contínua.
Conclusão: estrutura define aprovação
Um projeto de usabilidade bem estruturado não só reduz riscos clínicos — ele reduz riscos regulatórios.
Porque permite demonstrar, com clareza:
- Que os riscos foram identificados
- Que decisões de design foram tomadas com base nesses riscos
- Que a interface foi validada com usuários reais
E isso é exatamente o que a ANVISA espera.
O projeto de usabilidade é obrigatório para todos os dispositivos médicos?
Sim. Com a RDC 751/2022, todos os dispositivos médicos devem apresentar evidência de usabilidade, independentemente da classe de risco.
A usabilidade deve ser feita no início ou no final do projeto?
Deve ser realizada ao longo de todo o desenvolvimento. Fazer apenas no final compromete a qualidade da evidência e aumenta riscos regulatórios.
Qual a diferença entre avaliação formativa e sumativa?
A avaliação formativa ocorre durante o desenvolvimento para melhorar o design.
A sumativa é a validação final, usada como evidência regulatória.
É possível aprovar um produto sem teste com usuários?
A validação com usuários reais é essencial para demonstrar segurança de uso. Dependendo da rota escolhida para avaliar a usabilidade, é possível utilizar outras ferramentas para substituir o teste com o usuário final, mas sempre que possível, o teste é recomendado.
O que mais reprova projetos de usabilidade?
Os principais problemas são:
Falta de rastreabilidade
Testes desconectados do risco
Ausência de análise de tarefas críticas
Documentação inconsistente
Usabilidade substitui gerenciamento de risco?
Não. Ela complementa. A usabilidade foca nos riscos relacionados ao uso, dentro da estrutura de gerenciamento de risco já criada.
Sobre a MedUse
A MedUse é especializada em usabilidade para dispositivos médicos, apoiando fabricantes e empresas do setor de saúde no desenvolvimento de produtos mais seguros, eficazes e alinhados aos requisitos regulatórios.
Nossa equipe atua na estruturação de engenharia de usabilidade, documentação técnica e organização do backoffice regulatório para dispositivos médicos, ajudando empresas a atender requisitos da ANVISA e de normas internacionais aplicáveis ao setor.
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